19/08/2010

No Cais das Colunas




aqui  me sento   e medito
aqui me sinto disperso
sou como o eco dum grito
que atravessa o universo
*
esta vontade insistente
de partir     ficando aqui
me deixa triste e contente
pensando  que  já parti
*
à beira rio sonhando
aqui eu    me sinto assim
há coisas   que recordando
me  fazem   fugir de mim
*
no meu alforge de sonhos
carregado de vazio
há espaço para mais um
o grande sonho   parti-o
não me resta mais nenhum
*
aqui me sento e me penso
aqui me oprimo e desfaço
é como    se eu fosse imenso
e o rio    o meu regaço


03/07/2010

O Nero dos meus sonhos

*


sou o Nero dos meus sonhos
louco de pé no terraço
soltando berros medonhos
pelos sonhos que desfaço

meus sonhos servem de pasto
às labaredas da torre
não deixarei nem o rasto
de nenhum sonho que morre

minha torre de babel
não há livro nem compêndio
não há tinta nem pincel
que descreva este incêndio

sou o Nero dos meus sonhos







27/06/2010

O poema é uma concha



o poema    é uma concha
com o som    como o do mar
faz eco dentro de nós
é a alma   a  respirar

por isso tem que ser escrito
para que não nos magoe
como lançarmos um grito
quando cá dentro nos dói

o escrever não é senão
ave livre a libertar-se
duma certa solidão
com o poema por disfarce

o poema    é uma mera
dor   que queremos ocultar
como nós    uma quimera
um desejo de gritar

o poema é uma concha
com o som como o do mar

*

30/05/2010

Na esquina da rua


a velha que estava
ao fundo da rua
nas noites de verão
sonhava sonhava

à sombra da lua
fazendo serão
rezava rezava

a velha que estava
ao sol e ao frio
nos dias d'inverno
chorava chorava

a face era um rio
a vida um inferno

a velha que estava
pedindo esmola
chorando na esquina
olhava olhava
para a menina
que vinha da escola


hoje na esquina
da rua triste
com gente a passar
só vejo a menina

a velha que viste
deixou de lá estar



**

12/04/2010

Não é poema nenhum


isto não é poema nenhum
é certamente um desabafo
entre mim e Cristo
aquele Jesus que alguns acusam de maluquinho por ter sido sempre
doido por cruzes
e que acabou numa
que não era nenhuma das que fazia na carpintaria do pai

mesmo depois de morto
continuamos amigos e falo ainda com ele

deve rir-se muito das coisas que lhe digo
sem nunca lhe mentir
quando me zango com ele
não me responde
não diz nada de jeito e continua na cruz com aquele ar de sofredor
e isso me chateia e ele sabe
por isso nem responde

gosta de mim como eu gosto dele
disso não tenho dúvidas

um dia trocou-me as voltas e eu
que o trazia sempre no bolso
acabei por largá-lo à porta duma igreja de Burgos
onde cortámos relações e
nunca mais nos entendemos

desabafo ainda com ele
e ri-se de mim e não liga nada ao que eu digo

as coisas que lhe conto e que ele sabe!

não lhe escondo nada porque sei que ele havia de rir

é por isso que continuamos amigos como sempre

mas sei que um dia ele há-de arrepender-se de eu o ter abandonado
e há-de abraçar-me
e rir muito de mim
porque ele sabe
que a culpa foi toda dele e ao fim de tantos anos
já não vai ressuscitar
e sabe Deus se lá estará
para acolher-me

*

08/04/2010

Rio quase mar


em qualquer sítio sentado
a ver o Tejo quase mar
despejei nele um poema
que trazia cá por dentro
e o rio levou para salgar

lá onde o sol mergulha
cansado de aquecer
um país que já não sabe
o que foi e o que vai ser

olhei daqui o poente
a tingir de vermelho o céu
longe lá longe
onde se afundam sonhos no mar

para lá do que a vista alcança
só vale a pena sonhar
se soubermos ser criança


*

03/04/2010

Reencontro


aqui o mundo é tão meu
soletro versos a esmo
passam as núvens no céu
como sombras de mim mesmo

aqui o mundo é tão meu
sopram-me os ventos canções
voam gaivotas e eu
vou devorando ilusões

aqui o mundo é tão meu
a noite vai-me escondendo
com o seu manto de breu
sonhos que ando tecendo

aqui o mundo é tão meu
de rastos triste gritando...
um dos sonhos que morreu
renasceu e está voltando

aqui o mundo é tão meu


**

24/03/2010

Em branco

*
                                              

                                                  tenho um livro de folhas brancas
                                                  à espera
                                                  que eu as suje de palavras
                                                  que ninguém há-de entender

                                                  fico horas e horas a ler
                                                  folhas em branco que não escrevo

                                                  um livro que é só meu

                                                  quem quiser
                                                  que as leia como eu
                                                  e como estão
                                                  e nelas sinta tudo aquilo com que sonhei
                                                  e por birra de criança
                                                  ou sei lá se por vingança
                                                  não escrevi nem escreverei


*

14/03/2010

Sabor de amora

*
                                 apesar de tudo
                                 não escondo as minhas mãos
                                 onde trago ainda um resto de sol
                                 por tocar-te o rosto

                                 vê os meus lábios
                                 ainda com o sabor a amora do teu sorriso
                                 e a tua fome de corpo
                                 gretados não vês?

                                 e ainda perguntas porque ando em pontas de raiva
                                 e recuso adormecer
                                 com a saudade na boca
                                 e sonhos e medos nos olhos


***

21/02/2010

cavalo de vento

  falas de um vento forte
  que sopra e te arrasta
  como folha de árvore seca
  que o outono envelheceu

  caíste de borco na planície
  onde há ainda malmequeres
  a berrar brancos e amarelos
  e a rir dos pardais que esvoaçam
  sobre ti e contra o vento
  vento que uiva
  e se estatela nos pedregulhos
  donde escorrem lamentos e segredos
  que nos invadem e são
  como tortura
  a deixar nos malmequeres
  a vontade de secar

  falas de um vento forte que sopra
  dum vento que é a imagem
  do que tu sentes na alma
  vento que te arrasta e em breve
  te tornará em miragem

  falas de um vento forte
  vento-cavalo que montas
  vento que ao fim de contas
  te há-de arrastar para a morte



**

09/02/2010

Um só




                                      um dia
                                      um dia de vendaval
                                      possesso de sonhos e raivas
                                      saltei muros
                                      mordi todas as regras com que me açaimaram
                                      e fugi de mim mesmo

                                      sentado e sem braços para me agarrar
                                      vi-me fugir
                                      e saltar
                                      e dançar
                                      em cima da raiva
                                      e seguir
                                      lá para os lados dos montes brancos de Calahorra
                                      uivando
                                      uivando como lobo
                                      ao mundo que me traçaram

                                      sei que um dia
                                      um dia de vendaval
                                      hei-de encontrar-me
                                      e então
                                      então sim
                                      farei as pazes comigo mesmo
                                      e voltaremos a ser
                                      um só
                                      os dois


****

15/11/2009

Taça de sonhos


apontaram-me o caminho
um beco

seguiu-me rindo a manada
ri dos idiotas
estendi os braços
despejei todo os sonhos
e cansaços
e não parei de olhar
os meus sonhos
de voar

à beira mar onde seco
as lágrimas que não choro
encontrei naquele beco
uma estrela que adoro

ri de todos e de mim mesmo
meus sonhos todos voaram
meus olhos vagueiam a esmo
nas estrelas que os sugaram

riram até as gaivotas
pelos meus sonhos levados
para longe dos idiotas
atrás de sonhos roubados

quem quiser sonhar que o faça
os meus sonhos são só meus
beberem da minha taça
que a mim me serviu deus?

24/10/2009

Noite no Cais

no cais de embarque estava só eu
quase cansado
e a sombra da bruxa mais feia da terra que leu
o meu fado

o mar imenso à frente
espumando de raiva lambendo penedos
impando com fome de gente
ria e torcia nas ondas os medos
agarrados aos braços da grua

e eu
no cais de embarque encharcado de lua
abracei o mar
e o mar bebeu
a sede que eu tinha de amar

21/10/2009

Porquê?



não tens o direito de levar todos os sonhos nos braços
porque ontem tivemos o mesmo desejo e a mesma esperança
deixámos nos olhos de todos os nossos passos
e as nossas bocas se aproximam à medida que o tempo avança
quem disse que eu tenho que ser decente
e ver e olhar tudo, tudo
como toda a gente ?

o entrudo
que entrou nas escolas, nos palácios e até nos hospitais
que rola nas escadas do rossio e dos hotéis
ou nas ruas do intendente

é o mesmo disfarce que se usa nos bordéis
nas igrejas e em muitos lugares mais

porquê?

quem disse que eu tenho que ser decente
e ver e olhar tudo, tudo como toda a gente ?

16/10/2009

Lírica

riram

atiraram-me pedras à alma
noite estagnada de lua cheia

pelo dorso da esperança rolaram-me todos os sonhos
que amealhava na redoma do medo

riram como sol nas vertentes do regresso
riram como chuva nas raízes sequiosas
riram como olhos no silêncio dum postigo
riram

riram de promessas onde os sonhos encalharam
e me engravidaram os olhos de angústia
e a esperança abortou nos contornos da raiva
onde os abutres bebem e se atordoam de silêncios

náufrago de sonhos e pesadelos
neste rio de promessas que sorvi
riram

foi na primavera dum desespero maldito
como estalido de dor em olhos baços

riram
e ficaram na sombra dos atalhos cá dentro
a germinar lírios de tortura

13/10/2009

lua no rio

atirei pedras à lua
lua boiando no rio
                  essa tristeza que é tua
                  te invade a alma de frio

lua a banhar-se nas águas
onde madrugam os medos
                  esses teus olhos são mágoas
                  revelam tantos segredos

menina lua  gazela
deixa o rio seguir
                  não deixarás de ser bela
                  aprenderás a sorrir

09/10/2009

Mote

"A mágoa que mais magoa
 -de tantas que a vida tem-
é a que não se apregoa
nem se descobre a ninguém..."
                                                                                  Quadra de Maria da Conceição Elói


despediu-se.... nem olhou!
passa bem! ... disse-me à toa
o seu desdém me deixou
"a mágoa que mais magoa"

o que em meus olhos já viste
não o verás em ninguém...
é das dores a mais triste
"de tantas que a vida tem"

é a dor de estar escondendo
o desdém de outra pessoa...
é a dor de estar sofrendo...
"é a que não se apregoa"

se é razão para sofrer
por gostar tanto de alguém...
não vale a pena dizer
"nem se descobre a ninguém"

08/10/2009

Incompleto

há um mundo por pintar
que os pintores não conhecem

pintam terra, céu e mar
e os pintores não aparecem                            
a pintar aquele mundo
que o mundo tem por pintar

há um mundo sem esperanças

um mundo onde as crianças
estão proibidas de sonhar

30/09/2009

Conto que...

era uma vez um menino
tinha os olhos da alma a saltar entre dois mundos

seu tio tinha livros    muitos      esgaravulhava neles como se andasse sempre em busca de qualquer coisa que nunca se tem       às vezes parecia que a alma dele era uma estátua a devorar o infinito     às vezes ria como quem não sabe rir

seu amigo carvoeiro saía de casa quando os galos acordavam os homens do campo e regressava à tardinha como se trouxesse o mundo no carro      cantando

seu tio olhava os campos e chorava poemas  
à noite    quando havia luar     tio carmo ficava encharcado

martinho carvoeiro não       o luar era o sol da noite     era como sentir a alma janela aberta      olhava as estrelas e acabava ressonando sobre os montes de feno

martinho carvoeiro ressonando

tio carmo roendo-se à procura de coisas que não o deixavam dormir

tio carmo está cansado    pensava o menino

o velhote punha-se de cócoras     agarrava os bracitos do menino e ficava olhando    como se espreitasse para o fundo de si mesmo

está triste     dizia o menino

o carvoeiro não      agarrava a criança levantando-a       sentava-a nas suas pernas    contava a história dos papões que não existem e levava-a para casa   num passo lento   e sussurando cantilenas sem sentido

era uma vez um menino  que não gostava dos livros e queria ser carvoeiro

Vagabundo

rio e choro sem vontade
levado pelo destino
na minha mala a saudade
de quando era menino

rio e choro em segredo
num vendaval de sonhos
na minha mala o medo
e pesadelos medonhos

rio e choro como ave
que já não sabe voar
na minha mala sem chave
segredos por desvendar

rio e choro e canto assim
coruja vaiando a vida
como criança perdida
tremendo dentro de mim