12/04/2010
Não é poema nenhum
isto não é poema nenhum
é certamente um desabafo
entre mim e Cristo
aquele Jesus que alguns acusam de maluquinho por ter sido sempre
doido por cruzes
e que acabou numa
que não era nenhuma das que fazia na carpintaria do pai
mesmo depois de morto
continuamos amigos e falo ainda com ele
deve rir-se muito das coisas que lhe digo
sem nunca lhe mentir
quando me zango com ele
não me responde
não diz nada de jeito e continua na cruz com aquele ar de sofredor
e isso me chateia e ele sabe
por isso nem responde
gosta de mim como eu gosto dele
disso não tenho dúvidas
um dia trocou-me as voltas e eu
que o trazia sempre no bolso
acabei por largá-lo à porta duma igreja de Burgos
onde cortámos relações e
nunca mais nos entendemos
desabafo ainda com ele
e ri-se de mim e não liga nada ao que eu digo
as coisas que lhe conto e que ele sabe!
não lhe escondo nada porque sei que ele havia de rir
é por isso que continuamos amigos como sempre
mas sei que um dia ele há-de arrepender-se de eu o ter abandonado
e há-de abraçar-me
e rir muito de mim
porque ele sabe
que a culpa foi toda dele e ao fim de tantos anos
já não vai ressuscitar
e sabe Deus se lá estará
para acolher-me
*
08/04/2010
Rio quase mar
em qualquer sítio sentado
a ver o Tejo quase mar
despejei nele um poema
que trazia cá por dentro
e o rio levou para salgar
lá onde o sol mergulha
cansado de aquecer
um país que já não sabe
o que foi e o que vai ser
olhei daqui o poente
a tingir de vermelho o céu
longe lá longe
onde se afundam sonhos no mar
para lá do que a vista alcança
só vale a pena sonhar
se soubermos ser criança
*
03/04/2010
Reencontro
aqui o mundo é tão meu
soletro versos a esmo
passam as núvens no céu
como sombras de mim mesmo
aqui o mundo é tão meu
sopram-me os ventos canções
voam gaivotas e eu
vou devorando ilusões
aqui o mundo é tão meu
a noite vai-me escondendo
com o seu manto de breu
sonhos que ando tecendo
aqui o mundo é tão meu
de rastos triste gritando...
um dos sonhos que morreu
renasceu e está voltando
aqui o mundo é tão meu
**
24/03/2010
Em branco
*
tenho um livro de folhas brancas
à espera
que eu as suje de palavras
que ninguém há-de entender
fico horas e horas a ler
folhas em branco que não escrevo
um livro que é só meu
quem quiser
que as leia como eu
e como estão
e nelas sinta tudo aquilo com que sonhei
e por birra de criança
ou sei lá se por vingança
não escrevi nem escreverei
*
tenho um livro de folhas brancas
à espera
que eu as suje de palavras
que ninguém há-de entender
fico horas e horas a ler
folhas em branco que não escrevo
um livro que é só meu
quem quiser
que as leia como eu
e como estão
e nelas sinta tudo aquilo com que sonhei
e por birra de criança
ou sei lá se por vingança
não escrevi nem escreverei
*
14/03/2010
Sabor de amora
*
apesar de tudo
não escondo as minhas mãos
onde trago ainda um resto de sol
por tocar-te o rosto
vê os meus lábios
ainda com o sabor a amora do teu sorriso
e a tua fome de corpo
gretados não vês?
e ainda perguntas porque ando em pontas de raiva
e recuso adormecer
com a saudade na boca
e sonhos e medos nos olhos
***
21/02/2010
cavalo de vento
falas de um vento forte
que sopra e te arrasta
como folha de árvore seca
que o outono envelheceu
caíste de borco na planície
onde há ainda malmequeres
a berrar brancos e amarelos
e a rir dos pardais que esvoaçam
sobre ti e contra o vento
vento que uiva
e se estatela nos pedregulhos
donde escorrem lamentos e segredos
que nos invadem e são
como tortura
a deixar nos malmequeres
a vontade de secar
falas de um vento forte que sopra
dum vento que é a imagem
do que tu sentes na alma
vento que te arrasta e em breve
te tornará em miragem
falas de um vento forte
vento-cavalo que montas
vento que ao fim de contas
te há-de arrastar para a morte
**
que sopra e te arrasta
como folha de árvore seca
que o outono envelheceu
caíste de borco na planície
onde há ainda malmequeres
a berrar brancos e amarelos
e a rir dos pardais que esvoaçam
sobre ti e contra o vento
vento que uiva
e se estatela nos pedregulhos
donde escorrem lamentos e segredos
que nos invadem e são
como tortura
a deixar nos malmequeres
a vontade de secar
falas de um vento forte que sopra
dum vento que é a imagem
do que tu sentes na alma
vento que te arrasta e em breve
te tornará em miragem
falas de um vento forte
vento-cavalo que montas
vento que ao fim de contas
te há-de arrastar para a morte
**
09/02/2010
Um só
um dia
um dia de vendaval
possesso de sonhos e raivas
saltei muros
mordi todas as regras com que me açaimaram
e fugi de mim mesmo
sentado e sem braços para me agarrar
vi-me fugir
e saltar
e dançar
em cima da raiva
e seguir
lá para os lados dos montes brancos de Calahorra
uivando
uivando como lobo
ao mundo que me traçaram
sei que um dia
um dia de vendaval
hei-de encontrar-me
e então
então sim
farei as pazes comigo mesmo
e voltaremos a ser
um só
os dois
****
15/11/2009
Taça de sonhos
apontaram-me o caminho
um beco
seguiu-me rindo a manada
ri dos idiotas
estendi os braços
despejei todo os sonhos
e cansaços
e não parei de olhar
os meus sonhos
de voar
à beira mar onde seco
as lágrimas que não choro
encontrei naquele beco
uma estrela que adoro
ri de todos e de mim mesmo
meus sonhos todos voaram
meus olhos vagueiam a esmo
nas estrelas que os sugaram
riram até as gaivotas
pelos meus sonhos levados
para longe dos idiotas
atrás de sonhos roubados
quem quiser sonhar que o faça
os meus sonhos são só meus
beberem da minha taça
que a mim me serviu deus?
24/10/2009
Noite no Cais
no cais de embarque estava só eu
quase cansado
e a sombra da bruxa mais feia da terra que leu
o meu fado
o mar imenso à frente
espumando de raiva lambendo penedos
impando com fome de gente
ria e torcia nas ondas os medos
agarrados aos braços da grua
e eu
no cais de embarque encharcado de lua
abracei o mar
e o mar bebeu
a sede que eu tinha de amar
quase cansado
e a sombra da bruxa mais feia da terra que leu
o meu fado
o mar imenso à frente
espumando de raiva lambendo penedos
impando com fome de gente
ria e torcia nas ondas os medos
agarrados aos braços da grua
e eu
no cais de embarque encharcado de lua
abracei o mar
e o mar bebeu
a sede que eu tinha de amar
21/10/2009
Porquê?
não tens o direito de levar todos os sonhos nos braços
porque ontem tivemos o mesmo desejo e a mesma esperança
deixámos nos olhos de todos os nossos passos
e as nossas bocas se aproximam à medida que o tempo avança
quem disse que eu tenho que ser decente
e ver e olhar tudo, tudo
como toda a gente ?
o entrudo
que entrou nas escolas, nos palácios e até nos hospitais
que rola nas escadas do rossio e dos hotéis
ou nas ruas do intendente
é o mesmo disfarce que se usa nos bordéis
nas igrejas e em muitos lugares mais
porquê?
quem disse que eu tenho que ser decente
e ver e olhar tudo, tudo como toda a gente ?
16/10/2009
Lírica
riram
atiraram-me pedras à alma
noite estagnada de lua cheia
pelo dorso da esperança rolaram-me todos os sonhos
que amealhava na redoma do medo
riram como sol nas vertentes do regresso
riram como chuva nas raízes sequiosas
riram como olhos no silêncio dum postigo
riram
riram de promessas onde os sonhos encalharam
e me engravidaram os olhos de angústia
e a esperança abortou nos contornos da raiva
onde os abutres bebem e se atordoam de silêncios
náufrago de sonhos e pesadelos
neste rio de promessas que sorvi
riram
foi na primavera dum desespero maldito
como estalido de dor em olhos baços
riram
e ficaram na sombra dos atalhos cá dentro
a germinar lírios de tortura
13/10/2009
lua no rio
lua boiando no rio
essa tristeza que é tua
te invade a alma de frio
lua a banhar-se nas águas
onde madrugam os medos
esses teus olhos são mágoas
revelam tantos segredos
menina lua gazela
deixa o rio seguir
não deixarás de ser bela
aprenderás a sorrir
09/10/2009
Mote
"A mágoa que mais magoa
-de tantas que a vida tem-
é a que não se apregoa
nem se descobre a ninguém..."
Quadra de Maria da Conceição Elói
despediu-se.... nem olhou!
passa bem! ... disse-me à toa
o seu desdém me deixou
"a mágoa que mais magoa"
o que em meus olhos já viste
não o verás em ninguém...
é das dores a mais triste
"de tantas que a vida tem"
é a dor de estar escondendo
o desdém de outra pessoa...
é a dor de estar sofrendo...
"é a que não se apregoa"
se é razão para sofrer
por gostar tanto de alguém...
não vale a pena dizer
"nem se descobre a ninguém"
08/10/2009
Incompleto
há um mundo por pintar
que o mundo tem por pintar
um mundo onde as crianças
estão proibidas de sonhar
pintam terra, céu e mar
e os pintores não aparecem
a pintar aquele mundoque o mundo tem por pintar
há um mundo sem esperanças
um mundo onde as crianças
estão proibidas de sonhar
30/09/2009
Conto que...
era uma vez um menino
tinha os olhos da alma a saltar entre dois mundos
seu tio tinha livros muitos esgaravulhava neles como se andasse sempre em busca de qualquer coisa que nunca se tem às vezes parecia que a alma dele era uma estátua a devorar o infinito às vezes ria como quem não sabe rir
seu amigo carvoeiro saía de casa quando os galos acordavam os homens do campo e regressava à tardinha como se trouxesse o mundo no carro cantando
seu tio olhava os campos e chorava poemas
à noite quando havia luar tio carmo ficava encharcado
martinho carvoeiro não o luar era o sol da noite era como sentir a alma janela aberta olhava as estrelas e acabava ressonando sobre os montes de feno
martinho carvoeiro ressonando
tio carmo roendo-se à procura de coisas que não o deixavam dormir
tio carmo está cansado pensava o menino
o velhote punha-se de cócoras agarrava os bracitos do menino e ficava olhando como se espreitasse para o fundo de si mesmo
está triste dizia o menino
o carvoeiro não agarrava a criança levantando-a sentava-a nas suas pernas contava a história dos papões que não existem e levava-a para casa num passo lento e sussurando cantilenas sem sentido
era uma vez um menino que não gostava dos livros e queria ser carvoeiro
tinha os olhos da alma a saltar entre dois mundos
seu tio tinha livros muitos esgaravulhava neles como se andasse sempre em busca de qualquer coisa que nunca se tem às vezes parecia que a alma dele era uma estátua a devorar o infinito às vezes ria como quem não sabe rir
seu amigo carvoeiro saía de casa quando os galos acordavam os homens do campo e regressava à tardinha como se trouxesse o mundo no carro cantando
seu tio olhava os campos e chorava poemas
à noite quando havia luar tio carmo ficava encharcado
martinho carvoeiro não o luar era o sol da noite era como sentir a alma janela aberta olhava as estrelas e acabava ressonando sobre os montes de feno
martinho carvoeiro ressonando
tio carmo roendo-se à procura de coisas que não o deixavam dormir
tio carmo está cansado pensava o menino
o velhote punha-se de cócoras agarrava os bracitos do menino e ficava olhando como se espreitasse para o fundo de si mesmo
está triste dizia o menino
o carvoeiro não agarrava a criança levantando-a sentava-a nas suas pernas contava a história dos papões que não existem e levava-a para casa num passo lento e sussurando cantilenas sem sentido
era uma vez um menino que não gostava dos livros e queria ser carvoeiro
Vagabundo
rio e choro sem vontade
levado pelo destino
na minha mala a saudade
de quando era menino
rio e choro em segredo
num vendaval de sonhos
na minha mala o medo
e pesadelos medonhos
rio e choro como ave
que já não sabe voar
na minha mala sem chave
segredos por desvendar
rio e choro e canto assim
coruja vaiando a vida
como criança perdida
tremendo dentro de mim
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